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PAULO FREIRE: PATRONO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Publicado em 18/09/2019 às 18:36 | Acessos: 321


PAULO FREIRE

PATRONO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

 

Erlando da Silva Rêses[1]

 

Paulo Reglus Neves Freire, popularmente conhecido por Paulo Freire, nasceu em 19 de setembro de 1921, em Recife, no Estado de Pernambuco, filho de Joaquim Temístocles Freire e Edeltrudes Neves Freire. Paulo Freire foi alfabetizado no chão do quintal da sua casa, à sombra das mangueiras[2], como ele mesmo disse: “O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz” (Freire e Guimarães 1982, p.14-15).Posteriormente, entra para a escola particular da professora Eunice Vasconcelos, que assume uma presença marcante em sua formação. Oriundo de família de classe média sofre os efeitos da crise capitalista de 1929, tendo que se mudar para Jaboatão dos Guararapes (a 18 km de Recife).

 

Jaboatão foi de grande importância na vida de Paulo Freire. Foi lá que ele perdeu o pai aos 13 anos de idade e conheceu o significado da pobreza. Nas peladas de campos de futebol desta cidade, Paulo Freire teve contato com os meninos das camadas sociais mais pobres, filhos de camponeses e de operários, e descobriu a linguagem popular. Os seus estudos foram interrompidos várias vezes por razões de ordem econômico-financeira. Depois de muita peleja, concluiu o curso secundário no Colégio Oswaldo Cruz, em Recife/PE, onde obteve o seu primeiro emprego como professor de Língua Portuguesa, em 1941.

 

Em 1943, com 22 anos, começou a estudar Direito na Faculdade de Direito do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e concluiu o curso em 1947. Embora tenha se formado em Direito, Freire apenas ensaiou ingressar na profissão de advogado, desistindo, logo em sua primeira causa: “Tratava-se de cobrar uma dívida. Depois de conversar com o devedor, um jovem dentista tímido e amedrontado, deixei-o ir em paz. Ele ficou feliz por eu ser advogado, e eu fiquei feliz por deixar de sê-lo” (Gadotti, 1996).

 

Em 1944, conhece a professora primária Elza Maia Costa de Oliveira com quem casa-se e tem cinco filhos: Maria Madalena, Maria Cristina, Maria de Fátima, Joaquim e Lutgardes. O pai dele era coronel da Polícia Militar, admirador de Luiz Carlos Prestes e espírita. Já a mãe, era dona de casa e católica. De religião católica, trabalhou a partir de 1954 em várias paróquias do Recife com iniciativas populares, onde também organizou um projeto com clérigos e leigos da paróquia da "Casa Amarela" para o desenvolvimento de currículo e para a formação de professores.

 

Em  1958,  a partir de iniciativa governamental, foi  realizado  o  II  Congresso  Nacional  de  Educação de Adultos, de 9 a 16 de julho, na capital do Rio de Janeiro. Esse congresso buscava uma avaliação das iniciativas  e ações realizadas na área, visando a propor soluções adequadas, a partir do estudo do assunto em seus diferentes aspectos.  O evento representou um marco na educação de  adultos, uma vez que os debates possibilitaram uma avaliação crítica das iniciativas realizadas nesse campo. A  delegação de  Pernambuco,  da  qual  Paulo Freire  fazia  parte,  propôs  uma educação  baseada  no  diálogo,  que considerasse  as características socioculturais  das  classes  populares,  estimulando  sua  participação  consciente na realidade social (Paiva,1987).

 

Em 1962, criou o Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife e foi o seu primeiro diretor, onde concebeu o chamado “Sistema Paulo Freire” constituído de cinco etapas: 1. Alfabetização infantil; 2. Alfabetização de Jovens e Adultos; 3. Ciclo primário; 4. Extensão cultural, por meio de um Instituto de Ciências do Homem; 5. Centro de Estudos Internacionais. No início dos anos 60 engajou-se nos movimentos de educação popular, entre eles o Movimento de Cultura Popular (MCP), onde desenvolveu o seu sistema de educação com dedicação no campo da educação de adultos em áreas proletárias, por meio dos chamados Círculos de Cultura. Este organiza uma “roda de pessoas”, em que

 

visivelmente ninguém ocupa um lugar proeminente. O professor que sabe e ensina quem não sabe e aprende aparece como o monitor, o coordenador de um diálogo entre pessoas a quem se propõe construírem juntas o saber solidário a partir do qual  cada um ensina e aprende (...) No círculo de cultura o diálogo deixa de ser uma simples metodologia ou uma técnica de ação grupal e passa a ser a própria diretriz de uma experiência didática centrada no suposto de que aprender é aprender a “dizer a sua palavra” (Brandão apud Streck, Redin e Zitkoski, 2010, pg. 69).

 

 

Em 1963, iniciou as primeiras experiências na extensão universitária. Nessa época, quase 40% da população brasileira era analfabeta e apenas um terço das crianças frequentava escolas. A proposta de alfabetizar 300 trabalhadores rurais em 45 dias, em Angicos (RN), deu certo e consolidou um projeto piloto. A partir daí, instaurou um método inovador de Alfabetização de Jovens e Adultos, que passou a servir de parâmetro para experimentos no Brasil e no mundo.

 

O Golpe empresarial-militar de 1964 extingue o Programa Nacional de Alfabetização e Paulo Freire é preso em Recife, por cerca de 70 dias. Em setembro de 1964, ele recebe asilo político na Embaixada da Bolívia, no Rio de Janeiro, e em novembro do mesmo ano segue para o Chile. Lá encontrou um clima social e político favorável ao desenvolvimento de suas teses. Atuou em programas de educação de adultos no Instituto Chileno para a Reforma Agrária (ICIRA). Neste país escreveu dois de seus livros mais conhecidos “Educação como Prática da Liberdade” (1965) e “Pedagogia do Oprimido” (1968). Em ambas as obras, Freire expressa suas vivências com a educação popular, a conscientização, a libertação e a justiça social.

 

Paulo Freire pelo mundo

 

Depois de viver até 1969 no Chile, foi convidado a lecionar na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, quando muda-se para Cambridge, Massachussetts. Em 1970 é convidado para trabalhar no Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra na Suíça. É quando ganha projeção mundial e passa a “andarilhar” pelos cinco continentes. Ele percorreu países como Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Austrália, Itália, Nicarágua, Ilhas Fiji, Índia, Chile, Tanzânia, Zâmbia, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambiquee Estados Unidos.

 

 Fonte: Portal dos Fóruns de EJA. Disponível em: http://forumeja.org.br/df/

 

Após 16 anos de exílio, Paulo Freire pôde retornar ao Brasil depois de conseguir o passaporte por meio de um mandado de segurança e com a anistia política. Em 1979, visita São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. Em 1980, regressa definitivamente ao país com a intenção de reassumir suas funções na Universidade de Pernambuco, mas ainda havia restrições. Ainda na Europa, Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo, fez a Paulo um convite para lecionar na Universidade Católica. O convite se concretizou pouco tempo após a volta ao país, pois no mesmo ano, aceitou o convite para lecionar no Programa de Pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e, posteriormente, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em suas palavras: “Dezesseis anos de ausência exigem uma aprendizagem e uma maior intimidade com o Brasil de hoje. Vim para reaprender o Brasil” (Gadotti, 1996).

 

No dia 24 de outubro de 1986, falece a sua primeira esposa, Elza Maia Costa Freire, depois de 40 anos de amorosa convivência inspiradora no campo da educação. Dois anos mais tarde, encontra-se com Ana Maria Araújo Hasche, amiga desde a infância, aluna na adolescência e sua orientanda no mestrado, com quem casa-se em 27 de março de 1988 e passa a assumir o sobrenome Freire, depois das cerimônias religiosa e civil.

 

Em janeiro de 1989, recebe o convite da prefeita eleita da cidade de São Paulo pelo Partido dos Trabalhados (PT), Luiza Erundina, para exercer o cargo de secretário municipal da Educação. Dentre as marcas de sua passagem pela secretaria municipal de Educação está a criação do MOVA-SP (Movimento de Alfabetização da Cidade de São Paulo), programa criado em parceria com os movimentos sociais e populares. Era uma forma de restabelecer alianças entre a sociedade civil e o Estado. Trata-se de um modelo de programa público de apoio as salas comunitárias de Educação de Jovens e Adultos, até hoje adotado por numerosas prefeituras e outras instâncias de governo. Também empreendeu esforços para a criação e fortalecimento da gestão democrática e participativa com a reativação dos conselhos escolares, da revisão curricular e da recuperação salarial dos professores.

 

I Congresso Brasileiro de Alfabetização - 1990/SP

Fonte: acervo pessoal

 

Dois anos depois se afasta da Secretaria, mas continuou ativo colaborador. A prefeita Luiza Erundina afirmou que Paulo Freire estava sendo “devolvido ao mundo”. Ele passa a dedicar-se a escrever artigos e livros, retorna à PUC/SP e demite-se da Unicamp. No mesmo ano, participa da criação do Instituto Paulo Freire.

 

Ao longo de sua história, a Faculdade de Educação (FE) da UnB tem mantido em seu quadro funcional,  profissionais que construíram o seu percurso formativo sob a influência pedagógica da teoria do conhecimento efetivada por Paulo Freire, sendo responsáveis pela formação de inúmeros pedagogos(as), professores a partir da base praxiológica freireana. O próprio Paulo Freire teve presença marcante no Distrito Federal: coordenador do Plano Nacional de Alfabetização do governo João Goulart (1963); cidade do Gama em círculo de cultura (1963); encontro com professores e estudantes na UnB (1981); palestra para estudantes de mestrado em educação (1985); conselheiro do Conselho Superior da FUB (1987/88); palestra na Semana Universitária (1990); homenagem da UnB pelo prêmio Andrés Bello da OEA e homenagem do Centro Acadêmico de Pedagogia cujo nome leva o título de sua obra mais conhecida - Pedagogia do Oprimido (1992); última conferência na homenagem recebida na instalação do I Fórum Regional de Alfabetização de Jovens e Adultos, promovida pelo GDF da Frente Brasília Popular e Centro de Educação Paulo Freire - Cepafre, na cidade de Ceilândia (1996) (RÊSES; VIEIRA; REIS, 2012).

 

  Paulo Freire no Salão de Múltiplas Funções, o “Quarentão”, da Ceilândia, em 30/08/1996.

Fonte: Portal dos Fóruns de EJA. Disponível em: http://forumeja.org.br/df/

 

Nessa conferência Paulo Freire declarou:

 

Prá mim, estar aqui hoje é uma razão de imensa alegria; faz dois dias que eu estava com Nita em Niterói - duas noites passadas - quando recebi da universidade uma honraria acadêmica; me fizeram doutor honoris cau­sa da universidade, por causa destas coisas! Mas hoje, eu recebo um outro doutoramento, que prá mim tem tanta importância, tanta significação quanto o doutoramento da academia; eu recebo aqui, agora, um doutoramento do povo (o diploma do povo!), um diploma que não está aqui, mas que está na cabeça de todo mundo; no corpo, na imaginação, no sonho... O diploma deve dizer: Paulo, meu camarada, você andou brigando, andou lutando, andou fazendo umas coisas com outros Paulos, com outras Marias... E essas coisas sempre disseram respeito a nós. Nós agora, aqui em Ceilândia, damos a você um diploma que não é igualzinho ao doutoramento da univer­sidade, mas que tem a mesma significação, porque é o testemunho nosso de que você faz uns trecos certos. É isso que eu sinto hoje, aqui nessa noite! E outra coisa que eu gosta­ria de dizer a vocês, prá terminar. É que eu estou absolutamente convenci­do, e sempre estive desde a minha mocidade, de que nunca fazemos as coisas sozinhos! O que coube a mim..., talvez mais do que a outras pessoas, foi ter visto, foi ter imaginado, foi ter sonhado claramente com umas coisas que nem todos estavam vendo, ou com o que nem todos estavam sonhan­do, mas que se não tivesse havido a solidariedade de uma quantidade enor­me e crescente de gente que confia em si mesmo, de gente que quer assu­mir um papel sério na história da vida política deste país, se não houvesse gente assim - gente como vocês desta cidade - evidentemente que Paulo Freire estaria esquecido, ou seria convertido a um verbete de enciclopédia; e eu me sinto mais do que um verbete de enciclopédia, eu me sinto gente como vocês, cheio de esperança..., e convencido de que, possa até eu não ver este país mudado, mas não tenho dúvida nenhuma de que terei contri­buído com um mínimo para a mudança desse país, obrigado.

 

 

No dia 10 de abril de 1997, lançou seu último livro, intitulado "Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa” e em 2 de maio de 1997 morre, como um dos maiores educadores de todos os tempos.

 

Paulo Freire é o brasileiro com mais títulos de Doutor Honoris Causa concedidos por universidades, entre elas Harvard, Cambridge e Oxford. São mais de 40. Na UnB, recebeu este título post mortem, em 2011, por iniciativa do Centro de Memória Viva - Referência e Documentação em Educação Popular, Educação de Jovens e Adultos e Movimentos Sociais do DF da FE/UnB.

 

Por indicação da Deputada Federal Luiza Erundina (PSOL-SP), foi  aprovada a Lei nº 12.612 e sancionada pela Presidente Dilma Rousseff (PT), no dia 13 de abril de 2012, que conferiu  a Paulo Freire o título de Patrono da Educação Brasileira.

 

Continuamos na luta em defesa do seu legado e da manutenção deste título, que tanto orgulha a quem o conhece e trabalha com os seus princípios metodológicos e filosóficos

 

 

Para conhecer mais a obra e o legado de Paulo Freire
Última conferência de Paulo Freire no DF – Ceilândia, em 30/08/1996 (Portal dos  Fóruns de EJA do Brasil): http://www.forumeja.org.br/df/node/20
Revista Linhas Críticas nº 37 (Dossiê “Educando com Paulo Freire): http://periodicos.unb.br/index.php/linhascriticas/issue/view/218

RÊSES, Erlando da Silva e PEREIRA, Maria Luiza Pinho. Paulo Freire e a Pedagogia da Libertação. Disponível em: 

http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=86&tipo=dossie

Vídeo: ultima entrevista de Paulo Freire (17/04/1997): http://forumeja.org.br/ultimaentrevista.paulofreire
Livro: Educação de Jovens e Adultos Trabalhadores - Análise Crítica do Brasil Alfabetizado: http://repositorio.unb.br/handle/10482/32425

Livro: Educação de Jovens e Adultos e Formação Humana

 http://www.forumeja.org.br/df/node/3031

Livro: Educação de Jovens e Adultos Trabalhadores - Políticas e Experiências da Integração à Educação Profissional

 https://www.mercado-de-letras.com.br/resumos/pdf-09-11-17-17-06-47.pdf

Livro: Educação de Jovens e Adultos Trabalhadores -  Produção de Conhecimentos em Rede: https://psela.webnode.com/textos/

Livro: A Formação Continuada na Educação de Jovens e Adultos - cenários, buscas e desafios

http://forumeja.org.br/df/sites/forumeja.org.br.df/files/formacao_continuada_eja.pdf

 

 

REFERÊNCIAS

 

FREIRE, Paulo e GUIMARÃES, Sérgio. Pedagogia: Diálogo e Conflito. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1985, 127 p.

 

GADOTTI, Moacir. Paulo Freire: uma Biobliografia. São Paulo: Cortez Editora, 1996

 

PAIVA, Vanilda Pereira. Educação popular e educação de adultosSão Paulo: Loyola, 1987.

 

RÊSES, Erlando da Silva; VIEIRA, Maria Clarisse: REIS, Renato Hilário dos. Presença e pegadas de Paulo Freire no Distrito Federal: uma primeira aproximação. Revista Linhas Críticas, Brasília, DF, v. 18, n. 37, p. 529-550, set./dez. 2012.

 

STRECK, Danilo R.; REDIN, Euclides e ZITKOSKI, Jaime José. Dicionário Paulo Freire. 2ª Ed. rev. amp. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.

 

 



[1]
 Educador popular, professor associado da Faculdade de Educação (FE) da Universidade de Brasília (UnB), doutor em Sociologia pela UnB. Foi professor de Sociologia no Ensino Médio na SEDF por 12 anos. Atuou de forma voluntária durante dez anos com Alfabetização/EJA, como observador, coordenador e supervisor de turmas e ministrante de curso de EJA para professores da Educação Básica pelo Serviço Paz e Justiça (SERPAJ/Brasil) nos municípios do Entorno Sul do DF. Foi membro do GTPA/Fórum EJA/DF e coordenador do Curso de Especialização em Educação na Diversidade e Cidadania, com ênfase na EJA da FE/ UnB (2013-2016). É coordenador do Centro de Memória Viva - Documentação e Referência em Educação de Jovens e Adultos, Educação Popular e Movimentos Sociais do DF da FE/UnB.

 

[2] Em 1995, Paulo Freire lança a obraÀ sombra desta mangueira. São Paulo: Olho D’Água, 1995. 120 p.