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CECÍLIA MEIRELES: em que mares navegaremos seu nome?

Publicado em 06/11/2019 às 13:10 | Acessos: 392


CECÍLIA MEIRELES: em que mares navegaremos seu nome?

 

Alexandra Rodrigues

 

 

(...) Porque a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.

 

Reinventar a vida, e recriá-la na arte da escrita, parece ter sido a grandiosa tarefa de Cecília Meireles, uma das maiores expressões da literatura brasileira. Por isso, apresentar a biografia da poetisa e educadora, 118 anos após seu nascimento, parece uma tarefa oceânica, de tão vastos e profundos os universos pelos quais navegou sua existência dedicada à literatura e à educação, incluindo países longínquos como a Índia e continentes que internamente nos habitam.

 

Vem ver as cascas das conchas

Nas praias que as vão reduzindo a areia!

 

Oficina do vagaroso tempo (...)

 

Estes versos de Cecília bem podem ilustrar a vastidão e profundidade poética de sua obra. Sobretudo, a compreensão lírica e metafísica do humano em sua travessia pela oficina do tempo. Autora de uma vasta e riquíssima criação literária, Cecília escreveu mais de 50 livros, poéticas e didáticas destinadas a crianças. Mas destacou-se também como jornalista, cronista e romancista, atingindo todas as faixas etárias em sua obra. 

 

Como apresentar esse monumento poético brasileiro nascido a 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro, cuja vida e obra foram atravessadas pelo sonho e pela dor, pela filosofia e pela metafísica, pelo lírico e pelo épico, pelo ocidente e pelo oriente, pela solidão e pela multiplicidade existencial, pelo encontro com a natureza e com humano no que ele tem de mais sensível, subjetivo e transcendente? A própria Cecília nos adverte, no poema Biografia, da dificuldade que enfrentaríamos:

 

Escreverás meu nome com todas as letras

Com todas as datas

- e não serei eu.

 

Repetirás o que me ouviste,

O que leste de mim, e mostrarás meu retrato

- e nada disso serei eu.

 

Dirás coisas imaginárias,

Invenções sutis, engenhosas teorias

- e continuarei ausente (...)

 

Na humildade de uma leitura possível de sua presença, comecemos por visitar a infância, marcada pela dor de múltiplas perdas: do pai, 3 meses antes de seu nascimento, e da mãe, aos 3 anos de idade. Perderia também os três irmãos mais velhos, ainda crianças. O poema Conheço a residência da dor nos aponta um lugar onde Cecília voltaria ainda outras vezes, com o suicídio de seu primeiro marido, Fernando Correia Dias, artista plástico, com quem teve três filhas.

 

Conheço a residência da dor.

É num lugar afastado,

sem vizinhos, sem conversa, quase sem lágrimas,

com umas imensas vigílias, diante do céu.(...)

 

Criada pela avó, Cecília convive com memórias de coisas longínquas da infância, ao mesmo tempo em que aprende a beleza e o sonho, formando uma personalidade contemplativa e reflexiva, uma sensibilidade rara que prenuncia já a poetisa de profunda busca do sentido da existência.

 

Papéis

 

(...) Minha infância foi sobre um velho tapete oriental.

Nela aprendi a beleza das cores.

Nele sonhei com as raízes do azul e do encarnado.

E sempre me pareceu que o desenho era uma escrita:

Que o tapete falava coisas,

- eu é que ainda não podia entender.

 

Formada no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro, Cecília iniciou sua carreira docente ainda muito jovem, em 1918, como professora do curso primário. Percebendo a existência de escassas publicações de qualidade para a infância, cedo se torna autora de livros paradidáticos para o ensino fundamental, como a obra Criança, meu Amor, publicada em 1924, adotada pela Diretoria Geral da Instrução Pública do Distrito Federal, abordando temas como momentos do dia, animais de estimação, sentimentos e brincadeiras. Já em 1964, publicou o conhecido livro de poesia Ou isto ou aquilo, abandonando o didatismo e estilo doutrinário da época e conversando com o sentimento da criança, mas não deixando de dialogar com a sensibilidade do adulto. Observem essa dimensão em um pequeno trecho do poema que dá nome ao livro:


(...) Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

Cecília foi defensora dos princípios da Escola Nova e responsável pela criação da primeira Biblioteca Infantil especializada do Brasil, em 1934, no Rio de Janeiro. Considerada, à época, uma concepção muito avançada, realizava também atividades relacionadas ao cinema e à música, e áreas afins. Nela foi criada uma atmosfera das mil e uma noites, aproveitando as características arquitetônicas do Pavilhão Mourisco, onde se situava. A experiência foi alvo de polêmica, pois, segundo alguns,continha livros perigosos para a formação das crianças, como As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain.

 

A obra multifacetada de Cecília Meireles nos convida a penetrar uma sensibilidade rara. A temática da transitoriedade da vida atravessa sua extensa poética, essencialmente marcada pelo lirismo. Laureado com o primeiro prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras em 1938, o livro Viagem assinala o reconhecimento de sua consagração poética. Mas Cecília também se mostra capaz de uma extraordinária obra épica e dramática: o Romanceiro da Inconfidência revisita a histórica luta pela liberdade em Minas Gerais, no século XVIII. Já em seu livro Cânticos, publicado postumamente, Cecília revela uma atmosfera mística de profunda busca espiritual.

 

A poetisa nos deixou no dia 9 de novembro de 1964, mas nos visita toda vez que abrimos as páginas de seus livros e nos permitimos ser tocados por seus versos. Convido leitoras e leitores a se deixarem tocar pelas pétalas de Cecília que ainda esvoaçam na atmosfera poética do nosso tempo:

 

4º Motivo da Rosa

 
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

 

Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

 

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando em mim.


E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

 


 

Sobre a autora:

 

Alexandra Rodrigues nasceu em Lisboa e enraizou-se em Brasília em 1985. É psicóloga e professora na Faculdade de Educação da UnB. Integra o Projeto do Museu da Educação do Distrito Federal (MUDE), tendo sido co-organizadora de duas publicações relacionadas: Nas Asas de Brasília: memórias de uma utopia educativa (2011) e Anísio Teixeira e seu legado a educação do Distrito Federal: história e memória (2018). Dedica-se também à literatura, tendo publicado O Nome das Coisas (prosa poética) e Minha avó botou um ovo (crônicas). Tem poemas, crônicas e contos publicados em várias antologias. Recebeu alguns prêmios literários, destacando-se o 1º lugar no Prêmio Literário Cora Coralina (2009).